vazamento


do cano rompido 

a água escorre escondida

sob o chão da cozinha ela cria vida

e mesmo sem luz e alimento

peixes nadam contentes por lá

e algumas pedras forram a piscina

que se forma por conta própria 

sem vazão e sem aviso prévio

rasgam o coração da casa

o cano não se cala e jorra a água da pia

para outros lugares não permitidos

evoca o medo da terra molhada

engolir toda a construção

e o coração do homem que assentou os tijolos

se enche de apreensão e tormenta

e lamenta que não haja outra saída

senão romper a tampa de cerâmica 

daquele poço com certo desgosto

e cavar ainda mais e mais e mais

para abraçar o cano que lá embaixo

antes solitário e úmido apenas por dentro

naufragado dorme de olho aberto em um mistério

que faz o homem não ter hora para o descanso

 

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