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minha tia

 minha tia morria naquela fotografia sempre sublime, na vida e naquele retrato sempre sozinha, na vida e naquela fotografia sempre serena, na vida e naquela moldura acastanhada sempre estática, na vida e sobre aquela escrivaninha minha tia morria naquela fotografia sempre com a vida cinza, como naquele registro em branco e preto sempre imutável, na vida e no seu próprio mundo sempre ofuscada e ao mesmo tempo indelével - ao menos para mim sempre quase invisível, na vida e pelos cômodos da velha casa sempre embaçada, na vida e nas antigas reuniões de família sempre esquecida, na vida e no levantar de mãos e taças a brindar pelo ano novo de 1964 nada a comemorar com a vinda da noite escura em trinta e um de março minha tia morria naquela fotografia sem dedicatória, sem data revelada,  sem um lugar especial, sem despedida nem memorial sem transparência, na curta vida escurecida pelas cortinas fechadas sem seus livros e pensamentos libertários - só seus - minha tia minha tia morria...

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