nunca soube falar
nunca soube falar de amor
sem sol, sem lua, sem mel
era só respiração (o ar faltava)
procurava e não achava um lugar
coração quebrado (soco no queixo)
travesseiro no chão e sentimento perdido
em vão, sem música nem tom
só o batom manchando os dedos
nunca soube falar de amor
era quase impossível ficar sóbrio
ao som daquele disco de vinil
só rodando a música (nada nossa)
sem dança ou movimento
e vida cantava sozinha
rindo, sobressaindo o perfume no ombro
era só respiração (faltava o ar)
nunca soube falar de amor
pelos cantos o aroma indecifrável
um toque de dúvida e sem novidade
deitava a borboleta sem cores
sob o cinza da fumaça de um cigarro
e desagarrados, pensavam em como seria
se o amor estivesse ali, naquele lugar
nunca soube falar de amor
mas amava e amava e amava
só não falava e nem bocejava
a fim de não demonstrar cansaço
queria um pouco de silêncio e um abraço
espelho embaçado e um vaso sem flor
uma tímida decoração e no céu, o sol
nunca soube falar de amor
mas amava e queria amar mais
lia poemas, escrevia no vapor do banho
experimentava, ao som de alguma música,
saudades inteiras de um caso quase vivo
e não deixava o abajur apagado
o timbre era constante (faltava o ar)
nunca soube falar de amor
mas queria mais e amava mesmo sem tanto
e muito se importava que a respiração fosse aquela
: presente, inteira, quente e real
era assim que acreditava que deveria ser
uma travessia, uma ponte, um ponto de luz
um carinho, algum verso, um instrumento
a alegria existente em si, sem explicação
nunca soube falar de amor
apenas e eternamente
: amar

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