pequena plantação de sonhos

em mim há tanto e tanto que ainda não sei

não me conheci a tempo e dar tempo de ser - para ser 

tão sublime e, ao mesmo tempo, inutilmente (?) existir


morrerei em poemas que sopram dentro de mim

e no mistério da superfície que se vê e não se enxerga

há uma realidade tão desumana no ar - em terra - que ouço 

que ouço em soluços oblíquos e tão antigos ainda presentes 

: não sentes?


carregando um peso desacreditado em cores - num único adeus

não ando disponível sem insistência e não compactuo de suas leis - não!

reinicio alguns escritos, antes descobertos de oxítonas, e que hoje contém 

um céu, um tambor, um alguém, um sofá e abajur (ne me quitte pas)


talvez eu devesse dizer que não quero mais celular e tentasse morar na serra

observando o sol ao natural e não mais em papel de parede ou em telas

pois, na parede do meu quarto há um sol (eu o vejo) refletindo as viagens que fiz e as que não fiz


na minha casa não habitam crianças - cresceram tão rápido! (existiram ao menos?)

não houve qualquer acordo para eu estar aqui - simplesmente nasci

e fiquei, e fiquei, e fiquei; e ficando, estou - até quando? até quando?


quero lavar algumas palavras que ficaram sujas pelo desuso e largadas na lama

: amor - piedade - paz - amizade - compaixão - verdade - vida-vida-vid-vi-v...


tenho sim esperança de que haja um remédio - menos amargo - e um bom café - forte

que apure, que cure e mature minha pequena plantação de sonhos 

sem novos extermínios, apenas novos desígnios no meio dia de um dia

deste final de outono do ano de dois mil e vinte e seis




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