Outono... (Da série: ESTAÇÕES)
Era outono e eu não sabia. Não percebi as folhas no chão. Eu andava tão jogada que nem reparei que, eu e as folhas, dividíamos a mesma altitude naquele momento.
E tinha um sol omisso e quase sem calor a tocar o chão também. E, por isso, não havia sombra. Éramos os três no chão: as folhas, eu e o sol. Sem abraços, nos encontrávamos e nem conversávamos. Estávamos emudecidos, com frio, empoeirados e úmidos, como se não fosse possível esta condição em pleno outono. E não percebemos o abismo que se criara.
Do silêncio rubro veio uma tempestade gritante e tão pesada que fez o sol se apagar. As folhas antes secas, quase apodreceram de tanta água doce a inundar aquele chão pesado. E eu, quase me afoguei.
Depois de um tempo, bateu um vento bom, carregando um cheiro de mato ou talvez embebido de algum perfume raro, caro, barato, não sei. Parecia um aroma de ervas esmagadas expelindo a seiva. E engasgada no soluço de um choro que era vivo, percebi que o sol mudou de lugar. As folhas novamente secas, roçando no asfalto com um som distante e quase surdo. Parecia um crepitar. Eu ouvia o fogo a queimar as folhas. Mas só via o vento as levarem embora. Elas então conseguiram voar e não mais caídas, não mais inertes, não mais silenciosas, voaram. Elas (também) mudaram de lugar.
Vi minha sombra, antes mergulhada nas poças d'água da chuva, a caminhar comigo outra vez. E lenta. E atenta. E arredia. Às vezes em uma soberba nada peculiar, meio boba. A minha sombra era eu mesma, só que do avesso.
Era reconfortante a sensação de um outono se despedindo e dando lugar a outra estação, repartindo olhares e sorrisos entre um fogão à lenha, uma xícara de chá, alguns amigos na varanda, meia dúzia de livros semiabertos em uma contemplação única de viver mais um dia, depois de ter estado no chão.
O inverno pode não vir a ser tão frio.

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